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terça-feira, 30 de abril de 2013

O exercício da ingratidão


Tradicionalmente a  arte tem sido vítima da ignorância, agora também sofre com a violência explícita, pública e notória.  Se a indgnação não se manifestar, o horror da brutalidade nos transformará em silenciosos e coniventes covardes.
A nota que circula na internet é: “-A produção do Caju na Rua vem informar que na madrugada desta sexta - feira, o caju do artista Edidelson que estava localizado no final da passarela do Caranguejo na Orla da Atalaia foi vandalizado. Populare...s relataram que nesta madrugada ouviram um barulho forte e que quando foram averiguar o que ouve vândalos tinha arrancado o caju da base e colocado no meio da via publica e decapitado a castanha do caju.

Nós do projeto já tomamos as devidas providencias junto a polícia para averiguar os fatos já que no local tem uma câmera de segurança da CIOSP que registrou as imagens.

Pedimos a população que repreenda todo e qualquer ato de vandalismo com os Cajus, estas obras representam os artistas desta cidade e é um patrimônio público.
Assim como esse já tivemos danos em outros Cajus, os quais alguns já foram devidamente reparados e devolvidos a população, mas até o momento nenhum tinha sofrido uma violência tão grave quanto este. Estamos tomando as devidas providências para que os culpados sejam identificados e devidamente punidos.

Quem souber de mais alguma informação que possa ajudar favor entrar em contato inbox ou por este face ou pelo do Caju na Rua.

Att,
Não costumo escrever artigos na primeira pessoa, porém, sendo eu também uma vítima e testemunha de outros casos escabrosos semelhantes a este, sinto-me impelido a narrar na primeira pessoa, protestar e me imaginar nas peles de Edidelson Silva e de Fábio Sampaio. Assim, esta minha atitude não se enquadra simplesmente no caso de “comprar a briga dos outros”. Na década de setenta, quando eu trabalhava no SENAI como professor e pintava por hobby, a bibliotecária não me deu sossego até eu lhe doar uma tela com um tema bem pitoresco. Cerca de três meses depois, um colega, o Izaias que, por amizade foi a sua casa fazer um pequeno conserto elétrico, percebeu que a tela estava largada junto às vassouras, atrás da porta do quintal. Décadas depois, já no ano 2010, outro amigo, Gilson Ramos me informava que, o seu irmão encontrou no lixo a citada tela em perfeito estado. No mínimo, tinha ele achado ali dois mil reais, que seria o preço da tela no mercado de arte local.  Enquanto estive como diretor na GAAS - Galeria de Arte Álvaro Santos, entre os inícios de 2001 e 2005, chegaram até lá dois casos de obras de artistas, já consagrados, Adauto Machado e Leonardo Alencar, que foram parar nos monturos. Quem as achou - um deles, por acaso também artista plástico, o gaúcho Eduardo Fabião, ao alugar uma casa no centro - ao mesmo tempo em que ficaram tristes diante da ignorância dos perdulários, faturaram. Após deixar a GAAS recebi um telefonema de uma senhora que solicitava o meu aval. Seria uma espécie de parecer artístico para justificar perante órgãos como o IPHAN, a retirada de um painel de Leonardo Alencar da Igreja de São José. Claro que declinei de tal poder. Ainda que o tivesse de fato, propositadamente não o faria. O motivo, eu soube depois, era o fato de ser um painel de características bem contemporâneas e os católicos queriam uma obra no estilo neoclassicista. Ainda tem gente que só considera arte a Greco-romana. Também em pleno século vinte e um, uma escultura em aço inoxidável com mais de dois metros e meio de altura, que eu repassei para um semanário num escambo, resultado de serviço prestado pelo dito, foi parar num ferro velho por ter sofrido uma avaria perfeitamente sanável. Fosse eu fazer aquela escultura hoje, somente os custos ficariam em quatro mil reais. Nestes episódios se nota claramente a ingratidão enquanto contrapartida, dada à indiferença ou ignorância, quando deveria haver o reconhecimento das habilidades e do desprendimento dos artistas além do valor dos seus feitos.  
Agora, no caso do Caju de Edidelson, da primeira edição do projeto Caju na Rua, criado por Fábio Sampaio, fica claro que não se tratou da mera ignorância, mas, de violência intimidadora; a conhecida brutalidade física como um ato simbólico; um ritual de feições macabras a mandar um recado: o caju teve apartada a sua castanha como se decepa uma cabeça humana do corpo. Neste contexto, o ingrediente mais animador dos bárbaros contemporâneos de Aracaju parece ter sido o reacionarismo estúpido vindos de doutrinação odiosa. Deixaram sinais de que foi pensada e posta em prática uma ação para destruir um ícone, que representava uma entidade, filosofia, ideologia ou uma pessoa.  Se esta leitura que eu faço deste episódio estiver errada, de outra forma, só cabe dizer que, quem o fez exercitou a ingratidão. Munido da ignorância qualquer indivíduo está preparado para exercitar plenamente a empáfia, o preconceito, a intolerância e a ingratidão. Enquanto nós artistas nos esmeramos em construir obras de arte para realçar a cara da cidade, compor a sua identidade artística e sociocultural há quem a destrua de diversas formas. Caso a população esqueça a reciprocidade, fique indiferente e vá se habituando a gestos insanos com estes, a ingratidão, esta vilania até entre os indivíduos mais íntimos, terá se generalizado como uma praga. 
Antônio da Cruz

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